Xamues: percevejos comestíveis do altiplano mexicano
Edmond Bojalil · Fundador, Recetas Mexas
Atualizado: 13 de mai. de 2026
O que é?
Os xamues, chamados também jumiles do mezquite ou cuchamas em algumas zonas, são percevejos grandes da espécie Thasus gigas, recolhidos em árvores de mezquite (Prosopis laevigata) e huizache do altiplano semiárido de Hidalgo, Querétaro e San Luis Potosí. Distinguem-se por sua cor vermelha brilhante com bandas pretas e por seu grande tamanho, de até 4 cm. Sua recolha ocorre de maio a agosto, quando os adultos se congregam nos ramos para alimentar-se das vagens tenras do mezquite. Têm um característico sabor ácido, herbal e aromático, similar à maçã verde com notas de canela, devido às glândulas defensivas. Preparam-se tostados com sal e limão, moídos em molho molcajeteado ou em tacos com feijão, e fazem parte central da cozinha tradicional ñañu (otomi) e huasteca.
Origem e história
O consumo de xamues está documentado etnograficamente entre os povos ñañu (otomi), huasteco e nahua do altiplano semiárido, associado ao uso ritual e alimentar do mezquite, árvore sagrada mesoamericana. A Larousse Cocina e a México Desconocido os identificam como um dos insetos comestíveis mais antigos do altiplano semidesértico, recolhidos pelo menos desde o período Clássico mesoamericano. A CONABIO Enciclovida documenta sua distribuição geográfica e suas relações ecológicas com o mezquite, espécie-chave do ecossistema. No século XX, antropólogos do INAH e biólogos da UNAM, encabeçados por Julieta Ramos-Elorduy, os catalogaram como parte do corpus de insetos comestíveis mexicanos. A feira do xamue, celebrada em municípios como Cardonal e Ixmiquilpan (Hidalgo), reflete a sobrevivência desta tradição durante as festas patronais do verão. A gob.mx reporta esforços por inscrevê-los em programas de aproveitamento sustentável como recurso florestal não madeireiro.
Ingredientes característicos
Thasus gigas é um hemíptero da família Coreidae que mede entre 3 e 4 cm em sua forma adulta. Vive em colônias sobre o mezquite, alimentando-se da seiva e das vagens tenras. Seu exoesqueleto vermelho-alaranjado contém compostos terpênicos defensivos que lhe outorgam um sabor cítrico característico. Tradicionalmente recolhem-se à mão nas primeiras horas do dia, purgam-se em água salgada e tostam-se no comal até dourar. Uma vez tostados moem-se com pimenta serrano, tomatillo e sal de gusano para formar o molho de xamue, que acompanha tacos, tamales de feijão ou ovos em penca. Seu valor nutricional, segundo análises da BUAP, ronda os 40% de proteína por peso seco, com presença de cálcio, magnésio e antioxidantes naturais. Na região do Valle del Mezquital cozinham-se também mexidos com ovo e pimenta pasilla, conformando um dos cafés da manhã mais tradicionais do povo otomi.
Significado cultural
Os xamues são símbolo da cozinha do semideserto mexicano e da cultura ñañu, integrando-se ao patrimônio gastronômico reconhecido pela UNESCO em 2010 dentro do dossiê da Cozinha Tradicional Mexicana. Seu consumo respeita ciclos ecológicos do mezquite, o que os converte em exemplo de aproveitamento sustentável estudado pela Universidad Autónoma del Estado de Hidalgo. A recolha gera rendas econômicas importantes para comunidades indígenas do Valle del Mezquital e da Huasteca potosina, onde se realiza a Feira do Xamue, evento que reúne degustações, danças e concursos de molho. A cozinha contemporânea, encabeçada por chefs como Aquiles Chávez (Hidalgo) e Ana Martorell, levou os xamues a menus de alta gastronomia na Cidade do México e Monterrey. Pesquisadores do Cinvestav exploram seu potencial como fonte de proteína sustentável frente às mudanças climáticas e à seca do altiplano.
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Perguntas frequentes
- Qual o sabor dos xamues?
- Os xamues têm um sabor ácido, herbal e aromático, similar à maçã verde com notas de canela, eucalipto e coentro. Ao tostar-se acentuam tons cítricos e umami, enquanto crus resultam mais penetrantes e picantes. Seu retrogosto é persistente e mineral, parecido com o de um chá de folhas verdes com raspas de lima.
- Como se preparam os xamues?
- Purgam-se em água salgada, tostam-se no comal e moem-se com pimenta serrano, tomatillo e sal de gusano para fazer o molho de xamue, que acompanha tacos e memelas. Também se mexem com ovo e pimenta pasilla, ou servem-se inteiros como petisco com tortilla e limão, especialmente em Ixmiquilpan e no Valle del Mezquital.
- Qual a diferença entre xamues e jumiles?
- Embora ambos sejam percevejos comestíveis, os jumiles são do cerro do Huixteco (Guerrero) e pertencem a Edessa mexicana, vivem em carvalhos e têm sabor de canela e iodo. Os xamues são Thasus gigas do altiplano, vivem em mezquites e huizaches e têm sabor de maçã ácida. Seu tamanho, hábitat e sabor são claramente distintos.
- De onde são originários os xamues?
- São originários do altiplano semiárido mexicano: principalmente Hidalgo (Valle del Mezquital), Querétaro e San Luis Potosí. Seu consumo é tradicional entre povos ñañu (otomi), huasteco e nahua, e está vinculado ao ciclo agrícola do mezquite, árvore sagrada do semideserto que provê também vagens, lenha e farinha.
Fontes consultadas

Fundador, Recetas Mexas
Mexicano de Puebla, profissional de TI e amante da boa comida. Autor de mais de 1.000 receitas mexicanas autênticas adaptadas para cozinhas do mundo todo. Mora em Madri desde 2018.
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