
Epazote, Hoja Santa e as Ervas que Definem a Cozinha Mexicana
21 de mar. de 2026
Conheça as ervas aromáticas que tornam a cozinha mexicana única: epazote, hoja santa, pápalo, pipicha e mais. Onde encontrar no Brasil e quais substitutos usar.
As ervas secretas da cozinha mexicana
Se a cozinha mexicana fosse uma canção, as pimentas seriam a melodia e as ervas aromáticas seriam a harmonia — aquelas notas de fundo que a maioria não percebe conscientemente, mas que, se faltam, deixam tudo soando incompleto. As ervas mexicanas são o ingrediente invisível que separa um prato "com gosto de México" de um que tem gosto de "algo com pimenta".
Enquanto o mundo conhece o coentro e o orégano, a cozinha mexicana usa um repertório de ervas muito mais amplo e fascinante: plantas com nomes nauatles, sabores que não existem na cozinha europeia e aromas que transportam diretamente para os mercados de Oaxaca, Puebla ou Veracruz. Algumas são possíveis de encontrar no Brasil em lojas especializadas; outras exigem criatividade para substituí-las.
Epazote: a erva dos feijões
O epazote (Dysphania ambrosioides) é provavelmente a erva mais importante da cozinha mexicana depois do coentro. Seu sabor é difícil de descrever: mentolado, levemente petroquímico, com um amargor suave e notas de cânfora e anis. Soa estranho, e é mesmo — mas no contexto certo, é insubstituível.
É usado fundamentalmente em:
- Feijão preto: um ramo de epazote cozido com o feijão durante os últimos 10 a 15 minutos de cozimento o transforma completamente. Além do sabor, ajuda a reduzir os gases intestinais que as leguminosas produzem.
- Quesadillas: as quesadillas de mercado na Cidade do México sempre levam uma folha de epazote com o queijo.
- Tamales: especialmente os de rajas com queijo e os de folha de milho.
- Mole verde: dá profundidade herbácea ao mole verde oaxaquenho e ao pipián.
- Esquites e milho: um toque de epazote nos esquites marca a diferença entre bons e extraordinários.
Encontrar epazote no Brasil
O epazote fresco é raro no Brasil, mas não impossível de encontrar. Suas opções:
- Epazote seco: encontra-se em lojas de produtos mexicanos e latinos nas grandes cidades e em sites de importação. Perde parte do aroma, mas funciona bem em feijões e ensopados. Use o dobro da quantidade em relação ao fresco.
- Cultivá-lo: o epazote é uma planta resistente, quase uma erva daninha, que cresce muito bem no clima quente e úmido do Brasil. As sementes podem ser compradas on-line. Germina rápido e produz folhas abundantes em vasos ou jardim.
- Substituto: não há substituto perfeito. O mais próximo é uma combinação de orégano mexicano + coentro + uma pitada de hortelã. Não é igual, mas traz complexidade herbácea ao prato.
Hoja santa: o anis da selva
A hoja santa (Piper auritum) é uma folha grande, em forma de coração, de cor verde intensa, com um aroma poderoso de anis, pimenta e eucalipto. É fundamental na cozinha de Veracruz, Oaxaca, Tabasco e Chiapas. Seu sabor é tão distintivo que um prato com hoja santa é imediatamente reconhecível.
É usada em:
- Mole verde oaxaquenho: a hoja santa é um dos ingredientes principais.
- Tamales de hoja santa: os tamales são embrulhados diretamente na folha, que confere seu aroma durante o cozimento no vapor.
- Peixe em hoja santa: filé de peixe embrulhado em hoja santa e grelhado — prato clássico de Veracruz.
- Mole amarelo: em Oaxaca, o mole amarelo leva hoja santa picada.
- Chocolate de hoja santa: em Tabasco se faz uma bebida de chocolate com hoja santa que é extraordinária.
No Brasil
A hoja santa fresca é praticamente impossível de encontrar no Brasil fora de alguns produtores especializados. O substituto mais próximo é uma combinação de folhas de manjericão fresco + algumas sementes de anis-estrelado. Se você cozinha com hoja santa com frequência, vale a pena cultivá-la — a planta adora o clima tropical brasileiro e cresce vigorosa em vasos grandes ou diretamente no quintal.
Coentro: a erva que divide opiniões
O coentro (Coriandrum sativum) é a erva mais usada na cozinha mexicana moderna. Aparece em molhos verdes, guacamole, tacos, ceviches, sopas, caldos e como guarnição de praticamente tudo. É fresco, cítrico, vibrante e polarizador — cerca de 10% da população mundial tem um gene que faz o coentro ter gosto de sabão.
No Brasil: o coentro é amplamente usado na culinária nordestina e está disponível em qualquer feira livre, mercado ou supermercado do país. É um dos ingredientes mais fáceis de encontrar da cozinha mexicana por aqui. Prefira sempre folhas frescas para obter o melhor sabor.
Dica de conservação: o coentro murcha rapidamente. Para que dure mais, coloque-o num copo com água (como flores) na geladeira, coberto com um saco plástico. Dura até 2 semanas assim. Você também pode congelá-lo picado em forminhas de gelo com um pouco de água ou azeite.
Orégano mexicano: diferente do europeu
O orégano mexicano (Lippia graveolens) NÃO é a mesma planta que o orégano europeu (Origanum vulgare). São de famílias botânicas completamente diferentes. O mexicano é mais cítrico, mais terroso e menos mentolado que o europeu. É usado amplamente em molhos, adobos, pozole e como condimento de mesa (no pozole, o orégano seco é polvilhado diretamente no prato).
No Brasil: o orégano mexicano seco pode ser encontrado em lojas de produtos latinos ou importados nas grandes cidades e em lojas online. Se não tiver, o orégano europeu (amplamente disponível em qualquer supermercado brasileiro) funciona como substituto aceitável — não é igual, mas cumpre uma função semelhante. Para se aproximar mais do sabor original, misture orégano europeu com uma pitada de tomilho.
Outras ervas mexicanas fascinantes
Pápalo
O pápalo (Porophyllum ruderale) é uma erva de sabor intenso — como coentro concentrado com notas de rúcula e um toque cítrico. Come-se cru, nunca cozido, principalmente nas cemitas (sanduíches) poblanas e como guarnição de tacos. É a erva favorita de Puebla.
No Brasil não se encontra facilmente. O substituto mais próximo é rúcula com um pouco de coentro fresco.
Pipicha
A pipicha (Porophyllum tagetoides) é prima do pápalo, mas com um sabor mais delicado — anisado, fresco, com notas de estragão. É usada em molhos crus e como guarnição em Oaxaca e Puebla. É extremamente rara fora do México.
Quelites
Os quelites são um termo genérico para várias plantas silvestres comestíveis que se colhem e cozinham no México: quintoniles, cenizos, beldroegas, romeritos. As beldroegas (Portulaca oleracea) são as mais fáceis de encontrar — crescem como erva daninha em jardins e terrenos e são vendidas em alguns mercados e feiras livres no Brasil.
Romeritos
Os romeritos (Suaeda nigra) são uma planta silvestre que se cozinha com mole e bolinhos de camarão seco durante o Natal e a Quaresma. É um dos pratos mais tradicionais da Cidade do México. No Brasil não se encontram — a alternativa mais próxima são folhas de espinafre ou de acelga, que preservam parte da textura do prato original.
Chaya
A chaya (Cnidoscolus aconitifolius) é um superalimento maia com mais ferro que o espinafre e mais cálcio que o leite. É cozinhada como verdura em Yucatán e Tabasco — sempre cozida, já que crua contém compostos tóxicos. O substituto ideal no Brasil: espinafre ou couve.
Guia rápido de substitutos
- Epazote → orégano mexicano + coentro + pitada de hortelã
- Hoja santa → manjericão fresco + anis-estrelado
- Pápalo → rúcula + coentro
- Pipicha → estragão fresco + coentro
- Orégano mexicano → orégano europeu + pitada de tomilho
- Chaya → espinafre ou couve
- Quelites → beldroegas, espinafre baby ou agrião
"As ervas são a alma da cozinha mexicana. Sem elas, você tem pimenta e milho. Com elas, você tem o México."
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Fundador, Recetas Mexas
Mexicano de Puebla, profissional de TI e amante da boa comida. Autor de mais de 1.000 receitas mexicanas autênticas adaptadas para cozinhas do mundo todo. Mora em Madri desde 2018.
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