
O epazote cresce nos 27 estados do Brasil. O tomatillo, em oito herbários.
Dois ingredientes mexicanos que o Brasil supostamente não tem. Um está em todo o país com outro nome — e o Brasil o usa como remédio, não como tempero. O outro praticamente não existe aqui, e os números dizem quanto.
Toda receita mexicana de feijão-preto cozido pede epazote. Toda receita de salsa verde pede tomatillo. E toda lista de "ingredientes mexicanos impossíveis de achar no Brasil" põe os dois juntos, no mesmo saco.
Eles não pertencem ao mesmo saco. Um deles cresce em todos os estados brasileiros. O outro tem oito registros no país inteiro.
Parte 1: o epazote já está aqui, e o Brasil chama ele de outra coisa
O epazote é Dysphania ambrosioides, antes classificada como Chenopodium ambrosioides.
Essa planta consta na Flora e Funga do Brasil, o catálogo oficial da flora brasileira mantido pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro. E não consta de raspão: está registrada nas 27 unidades da federação, em todos os seis domínios fitogeográficos do país — Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.
O catálogo lista também os nomes populares dela no Brasil. Aqui está a lista completa, sem cortes:
mastruço, erva-de-santa-maria, anserina-vermífuga, mata-cabra, canudo, erva-das-cobras, erva-das-lombrigas, erva-santa, lombrigueira, ambrosia, ambrosia-do-méxico, caacica, mentrusto, chá-do-méxico, wormseed, worm-seed, ambrisina, cambrósia, chá-dos-jesuítas, erva-do-formigueiro, erva-embrósia, erva-formigueira, mastruz, mentrasto, mentruz, quenopódio
Dois desses nomes dizem tudo: ambrosia-do-méxico e chá-do-méxico. O Brasil sabe de onde ela vem. Só nunca a levou para a panela.
O que os outros nomes dizem
Olhe a lista de novo, agora prestando atenção no que a maioria dos nomes descreve:
- erva-das-lombrigas, lombrigueira, anserina-vermífuga → vermífugo
- erva-das-cobras, mata-cabra → uso medicinal e veterinário
- chá-do-méxico, chá-dos-jesuítas → chá
Nenhum deles é um nome de tempero. No México a mesma planta entra no feijão, no caldo de milho e na quesadilla de cogumelo. No Brasil ela virou remédio caseiro.
É a mesma planta. Mudou a função.
Quantos registros existem, e por que isso não é uma medida de abundância
O GBIF — a infraestrutura internacional que agrega registros de biodiversidade de museus, herbários e observações de campo — tem, para essa espécie:
| País | Registros no GBIF |
|---|---|
| Brasil | 2.205 |
| México | 1.658 |
Mais registros no Brasil do que no México. Antes de tirar conclusão disso, duas ressalvas que fazemos nós, não a fonte:
Primeira: registro não é abundância. O número mede quanto se coletou e quanto se digitalizou, não quantas plantas existem. Um país com mais herbários digitalizados aparece com mais registros.
Segunda: quase nenhum desses registros é observação de campo. Dos 2.205 registros brasileiros, 2.151 são espécimes preservados de herbário e apenas 54 são observação humana. É uma planta que os botânicos coletaram muito e que quase ninguém registra ao vivo.
O que o número sustenta com segurança é isto: a planta está documentada em todo o território brasileiro, por coleta científica, há décadas. Não é raridade e não é exótica aqui.
Duas autoridades botânicas discordam, e não vamos escolher uma
Há um desacordo real sobre se o epazote é nativo do Brasil.
- A Flora e Funga do Brasil (Jardim Botânico do Rio de Janeiro) classifica a espécie como NATURALIZADA em todos os 27 estados — ou seja, chegou de fora e se estabeleceu.
- O World Checklist of Vascular Plants (Kew), consultado pela API do GBIF, lista as cinco grandes regiões brasileiras — Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul — sem marcação de introduzida, ao lado do México, da Bolívia, do Peru, da Argentina e da América Central. Nessa base, portanto, ela é nativa do Brasil. A mesma base marca 184 outras regiões do mundo explicitamente como introduzida.
As duas bases são sérias e se contradizem. Documentamos as duas e não escolhemos.
Do ponto de vista de quem cozinha, a diferença é acadêmica: em qualquer das duas versões, a planta está aqui.
O aviso que este artigo não vai omitir
Na Flora e Funga do Brasil, o tipo de vegetação em que ela aparece começa por "Área Antrópica": terreno baldio, beira de estrada, quintal. É erva ou subarbusto, terrícola.
Isso significa que é fácil encontrar, e é exatamente por isso que o aviso importa.
Há intoxicação grave documentada com esta planta, incluindo um caso fatal. Um relato de caso publicado na Cureus em 2024 descreve a morte de uma menina de quatro anos em Marrocos após infusões repetidas e em dose alta da planta, usadas para baixar febre. O quadro descrito pelo Centro Antipoisons marroquino inclui dano hepático, renal, neurológico, digestivo e cutâneo. Os autores registram que a margem terapêutica da planta é muito estreita.
O óleo essencial das folhas, segundo o mesmo relato, tem p-cimeno (50,0%), alfa-terpineno (37,6%) e ascaridol (3,5%).
Sejamos precisos sobre o que esse caso diz e o que não diz. Ele descreve uso medicinal — infusões concentradas e repetidas —, não uso culinário. Não é o mesmo que um ramo de epazote numa panela de feijão para quatro pessoas. Mas também não encontramos nenhuma fonte que estabeleça uma dose culinária segura, e por isso não vamos inventar uma. O que podemos dizer com fonte é: a planta tem toxicidade documentada, o risco relatado é maior em crianças pequenas, e a diferença entre tempero e chá medicinal é a diferença entre um ramo e uma infusão.
Se você for usar, use como o México usa: pouco, na panela, e não como chá.
Parte 2: o tomatillo praticamente não existe no Brasil
O tomatillo da salsa verde é Physalis philadelphica (também citada como P. ixocarpa). Não é a fisális que se vende no Brasil.
Consultamos a Flora e Funga do Brasil por Physalis philadelphica. A resposta veio vazia: a espécie não consta do catálogo da flora brasileira.
No GBIF, o contraste é este:
| Espécie | Registros no Brasil | Registros no México |
|---|---|---|
| Physalis philadelphica (tomatillo) | 8 | 2.293 |
| Physalis peruviana (fisális) | 479 | 398 |
| Physalis angulata (camapú) | 1.731 | — |
Os oito registros brasileiros de tomatillo são todos espécimes preservados de herbário — nenhuma observação de campo. Seis são da Bahia, coletados em 2014 pelo herbário da UFMG; um é do Paraná, de 2012; um é de Santa Catarina, sem ano.
Oito espécimes de herbário em um país continental não são uma cultura agrícola. São uma anotação de botânico.
A fisális brasileira é outra planta
Quando um supermercado brasileiro vende "fisális", está vendendo em geral Physalis peruviana — a fruta doce, alaranjada, do tamanho de uma uva, que vai em sobremesa. É uma espécie diferente do tomatillo.
E há uma terceira, mais comum ainda no mato brasileiro: Physalis angulata, que a Flora e Funga do Brasil registra nas 27 unidades da federação e cujos nomes populares são camapú, balão-rajado, balãozinho e joá-de-capote.
O que não vamos dizer: que a P. angulata substitui o tomatillo na salsa verde. É do mesmo gênero e tem o mesmo cálice em forma de lanterna, mas não encontramos nenhum estudo que compare acidez, teor de pectina ou comportamento culinário entre as duas espécies. Sem isso, recomendar a troca seria palpite com cara de dado. NÃO VERIFICADO.
O que podemos dizer é o que os números mostram: o Brasil tem Physalis em abundância, e nenhuma delas é a do tomatillo.
E a lata?
Tomatillo enlatado — a forma como a maior parte do mundo resolve este problema — não foi verificado neste artigo. As plataformas de comércio eletrônico brasileiras que consultamos responderam com bloqueio automático (HTTP 403), não com resultado vazio. Bloqueio não é ausência: pode perfeitamente existir tomatillo em lata à venda no Brasil, e nós não conseguimos comprovar nem desmentir. Fica declarado.
O resumo honesto
| Ingrediente | Situação no Brasil |
|---|---|
| Epazote | Presente nos 27 estados, com 26 nomes populares |
| Tomatillo | 8 espécimes de herbário, sem cultivo documentado |
Duas plantas que as listas de internet tratam igual, e que não são nem parecidas em disponibilidade.
Se a sua receita mexicana pede epazote, a planta está no Brasil — com outro nome, com outra reputação, e com um aviso de toxicidade que vale respeitar.
Se pede tomatillo, aí sim você tem um problema de verdade.

Fundador, Recetas Mexas
Mexicano de Puebla, profissional de TI e amante da boa comida. Autor de mais de 1.250 receitas mexicanas autênticas adaptadas para cozinhas do mundo todo. Mora em Madri desde 2018.
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