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94,6% dos feijões brasileiros vêm da mesma linhagem que o frijol mexicano
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94,6% dos feijões brasileiros vêm da mesma linhagem que o frijol mexicano

24 de set. de 20266 min de leitura(Atualizado: 29 de set. de 2026)

O feijão foi domesticado duas vezes, em dois continentes. O Brasil ficou quase inteiro com a linhagem que saiu do México — e não é folclore: são 2.827 SNPs em 185 cultivares brasileiras.

O feijão é o alimento mais brasileiro que existe. E o mais mexicano.

Isso não é uma figura de linguagem sobre culturas irmãs. É genética de populações, e alguém já contou.

O feijão foi domesticado duas vezes

Phaseolus vulgaris — o feijão comum — tem duas linhagens selvagens, uma mesoamericana e outra andina, que divergiram entre si há mais de 100 mil anos, muito antes de qualquer ser humano chegar às Américas.

A partir dessas duas linhagens selvagens, há cerca de 8.000 anos, o feijão foi domesticado duas vezes de forma independente: uma no que hoje é o México, e outra na América do Sul.

O trabalho que fechou essa questão foi publicado na Nature Genetics em 2014: o genoma de referência do feijão comum, montado com 473 Mb de um genoma de 587 Mb, ancorado em 11 pseudomoléculas do tamanho dos cromossomos, mais o resequenciamento de 60 indivíduos selvagens e 100 variedades locais dos dois conjuntos gênicos.

O resultado mais revelador do estudo: menos de 10% dos 74 Mb de sequência envolvidos na domesticação foram compartilhados pelos dois eventos. As duas humanidades domesticaram a mesma planta mexendo em partes diferentes do genoma.

E há um detalhe que interessa especialmente a quem cozinha mexicano: no que hoje é o México, o feijão foi provavelmente domesticado junto com o milho, como parte do sistema de cultivo da milpa — feijão, milho e abóbora na mesma roça. Os três ingredientes que sustentam a cozinha mexicana não são três culturas que se encontraram: são um sistema agrícola único, domesticado em conjunto.

E o Brasil ficou com a linhagem mexicana

Um estudo publicado na Genes em 2020, do Instituto Agronômico de Campinas com parceiros do USDA e da Itália, genotipou 185 cultivares brasileiras de feijão com 2.827 SNPs de alta qualidade.

O resultado:

Os resultados distinguem as acessões mesoamericanas das andinas, com prevalência das acessões mesoamericanas (94,6%).

Noventa e quatro vírgula seis por cento.

O mesmo trabalho registra que o feijão Carioca — o mais consumido no Brasil desde os anos 1980 — deriva do conjunto gênico mesoamericano, e que o feijão preto representa cerca de 15% das variedades consumidas no país.

E faz um contraste que situa o Brasil no mapa mundial: na Europa predominam as acessões de origem andina; nos Estados Unidos, as de origem mesoamericana. O Brasil está do lado americano dessa divisão — o lado do México.

O dado mais antigo diz o mesmo

Não é achado de um estudo só. Dez anos antes, um trabalho publicado na Theoretical and Applied Genetics — de pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis e da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia — analisou 279 variedades locais brasileiras georreferenciadas com 67 marcadores microssatélites mais os genes Phaseolin, PvTFL1y, APA e quatro marcadores SCAR.

Conclusões:

  • Os dois conjuntos gênicos estavam presentes, mas o mesoamericano era quatro vezes mais frequente que o andino.
  • Pela faseolina, 222 das 279 acessões (79%) tinham o tipo 'S', característico do conjunto mesoamericano; as outras 59 tinham o tipo 'T', andino.
  • Nenhum outro tipo de faseolina ('C' ou 'H') apareceu na amostra brasileira.

Dois estudos, duas décadas, duas tecnologias diferentes — microssatélites e proteína de reserva em 2010, SNPs em 2020 — e a mesma resposta.

EstudoAmostraMesoamericano
Theor. Appl. Genet., 2010279 variedades locais4× mais frequente; 79% faseolina 'S'
Genes, 2020185 cultivares94,6%

Os dois números não medem a mesma coisa e não devem ser somados nem promediados. O de 2010 é sobre variedades locais de agricultor; o de 2020, sobre cultivares comerciais registradas. A diferença entre 79% e 94,6% pode ser real — meio século de melhoramento genético concentrando o material — ou pode ser efeito de amostras diferentes. Os estudos não respondem a isso, e nós também não.

Brasil é o maior consumidor do mundo

O estudo de 2020 abre afirmando que o Brasil é o maior consumidor e o terceiro maior produtor mundial de feijão comum. O de 2010 diz que o feijão é a principal fonte de proteína da dieta humana no país.

Os números do IBGE, na Produção Agrícola Municipal de 2024:

IndicadorBrasil, 2024
Quantidade produzida3.018.489 t
Área colhida2.631.805 ha
Valor da produçãoR$ 12.170.752 mil

Mais de 2,6 milhões de hectares. É uma das maiores áreas dedicadas a uma leguminosa alimentar em qualquer lugar do mundo.

Um limite do dado: o IBGE publica “Feijão (em grão)” como produto único. Não separa preto de carioca, então não podemos dizer quanto desses 3 milhões de toneladas é feijão preto. O número de 15% que citamos acima vem do estudo da Genes e se refere a variedades consumidas, não a toneladas produzidas. São coisas diferentes e não vamos misturá-las.

O que isso significa na panela — e o que não significa

O que significa. Quando uma receita mexicana pede frijoles negros, ela está pedindo uma planta do mesmo conjunto gênico que o feijão preto que já está no seu armário. Não é uma substituição forçada; é praticamente a mesma linhagem. Isso não vale para o feijão europeu típico, que é andino.

O que NÃO significa. Mesma linhagem genética não é mesma cultivar, nem mesmo tamanho de grão, nem mesmo tempo de cozimento, nem mesmo comportamento na panela de pressão. Conjunto gênico é uma categoria ampla: cabem centenas de cultivares muito diferentes dentro dele.

E o que não verificamos. Os dois estudos atribuem explicitamente o Carioca ao conjunto mesoamericano. Nenhum dos dois faz a atribuição explícita e isolada do feijão preto brasileiro a um conjunto gênico. O preto está dentro de uma amostra que é 94,6% mesoamericana, o que torna a atribuição muito provável — mas provável não é verificado, e não vamos escrever “o feijão preto brasileiro é mesoamericano” como se tivéssemos a frase de alguém. NÃO VERIFICADO.

E não comparamos nada na cozinha. Não medimos tempo de cozimento, absorção de água nem textura entre cultivares brasileiras e mexicanas. Ninguém publicou essa comparação que tenhamos encontrado. Se a sua panela de feijão preto brasileiro sai diferente da receita mexicana, a causa pode ser a cultivar, a idade do grão, a água ou o método — e não temos como dizer qual.

O ponto que fica

Duas cozinhas que se veem como distantes comem, em quatro de cada cinco casos — ou em dezenove de cada vinte, dependendo do estudo —, descendentes da mesma domesticação, feita no mesmo lugar, há oito mil anos, ao lado do mesmo milho.

Edmond Bojalil
Edmond Bojalil

Fundador, Recetas Mexas

Mexicano de Puebla, profissional de TI e amante da boa comida. Autor de mais de 1.250 receitas mexicanas autênticas adaptadas para cozinhas do mundo todo. Mora em Madri desde 2018.

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