
O habanero mexicano e a pimenta-biquinho são a mesma espécie
A pimenta mais famosa do México e a pimenta mais doce do Brasil são *Capsicum chinense* — e o centro de diversidade genética dessa espécie é a Bacia Amazônica, não o México. O que isso muda na sua cozinha.
A pimenta-biquinho não arde. É pequena, vermelha, doce, vem em conserva e serve de tira-gosto. O habanero arde tanto que no México se mede em avisos.
São a mesma espécie botânica: Capsicum chinense.
E tem mais: o centro de maior diversidade genética dessa espécie não fica no México. Fica na Bacia Amazônica.
Cinco espécies, duas histórias
O gênero Capsicum reúne 31 espécies. Cinco foram domesticadas; as outras são classificadas como semidomesticadas ou silvestres.
Duas dessas cinco explicam quase tudo o que separa a pimenta brasileira do chile mexicano.
| Espécie | Onde se domesticou | Exemplos |
|---|---|---|
| C. annuum | Centro-leste do México | jalapeño, serrano, poblano, ancho |
| C. chinense | Américas; maior diversidade na Amazônia | habanero, biquinho, murupi, de-cheiro |
A C. annuum — a espécie de quase todos os chiles secos mexicanos — foi domesticada no centro-leste do México. Um trabalho publicado em 2014 na PNAS cruzou quatro linhas de evidência independentes (arqueologia, modelagem de distribuição da espécie, paleobiolinguística e marcadores genéticos de microssatélite) e concluiu: a região que concilia todas elas vai do sul de Puebla e norte de Oaxaca até o sul de Veracruz, incluindo o Vale de Tehuacán.
O mesmo estudo é honesto sobre o que não sabe: restos pré-cerâmicos de pimenta em Tehuacán e Tamaulipas foram datados indiretamente em algo entre 9.000 e 7.000 anos antes do presente, mas esses restos nunca passaram por datação direta por AMS. O que está datado é o contexto, não a pimenta.
A C. chinense é outra história. Um artigo da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia publicado na Horticultura Brasileira em 2013 abre com a frase de que ela ocorre no Centro-Oeste, no Nordeste e na Bacia Amazônica — "onde está localizada a sua maior diversidade genética".
Ou seja: a espécie do habanero tem o seu maior reservatório genético dentro do Brasil.
E é a espécie mais consumida no Brasil
Isto não é curiosidade de herbário. Um trabalho da Embrapa Agroindústria Tropical publicado em 2013 afirma que, pela ampla adaptação a climas tropicais e equatoriais, a C. chinense é a espécie de pimenta mais produzida e consumida no Brasil.
A lista de C. chinense brasileiras é longa: pimenta-de-cheiro, pimenta-de-bode, murupi, cumari-do-Pará, biquinho — e o próprio grupo varietal Habanero, que a Embrapa mantém em banco de germoplasma e melhora geneticamente há anos.
O mesmo artigo descreve a biquinho sem rodeios: fruto vermelho ou laranja intenso, cerca de 3 cm de comprimento por 1,5 cm de largura, muito cultivada no Sudeste, "forte aroma de pimenta sem a sensação de queimação". Antes era só planta ornamental; hoje vai para molhos e saladas.
Aqui vale um aviso sobre o número que você vai ver a seguir. Esse artigo atribui à biquinho cerca de 1.000 SHU e à cumari-do-Pará cerca de 50.000 SHU — mas esses dois valores são citados de outras obras, não medidos pelos autores. Não são resultado de laboratório daquele estudo. Trate-os como ordem de grandeza, não como medição.
O que foi de fato medido: a malagueta
A pimenta malagueta (Capsicum frutescens) foi acompanhada por cromatografia líquida de ultra-alta eficiência ao longo de todo o amadurecimento, em estufa com temperatura e umidade controladas. O trabalho saiu na Molecules em 2017, assinado por equipes da Espanha e da Unicamp.
O teor total de capsaicinoides:
| Dia de colheita | Capsaicinoides | Estado |
|---|---|---|
| 12 | 0,829 mg/g | verde |
| 33 | 2,119 mg/g | verde |
| 54 | 2,328 mg/g | vermelho |
Todos os valores são por grama de fruto fresco, e é por isso que eles não podem ser comparados com nenhuma tabela de internet que não diga em que base mediu.
Se você quiser uma ordem de grandeza em Scoville: 2,328 mg/g são 2.328 µg/g, e aplicando o fator do método AOAC de 1998 (1 µg de capsaicinoides por grama = 15 SHU) dá cerca de 34.900 SHU em base fresca. Essa conversão é nossa, não dos autores — eles publicaram mg/g e pararam aí. Dizemos isso porque com outro fator de conversão o número muda.
O mesmo artigo traz um dado que quase nenhuma tabela menciona: os capsaicinoides não ardem igual entre si. A capsaicina tem 16.000.000 SHU; a di-hidrocapsaicina, 15.000.000; a nordi-hidrocapsaicina, 9.100.000; a homocapsaicina e a homodi-hidrocapsaicina, 8.600.000 cada. Duas pimentas com o mesmo total de capsaicinoides podem arder de formas diferentes porque a mistura é diferente.
A terceira espécie: a que o México não tem
A dedo-de-moça e a cambuci não são nem C. annuum nem C. chinense. São Capsicum baccatum var. pendulum.
Essa é a espécie sul-americana. A dedo-de-moça aparece identificada como C. baccatum L. var. pendulum no título de um artigo de 2016 na Ultrasonics Sonochemistry, de um grupo da Unicamp; a cambuci, com a mesma classificação, num trabalho de 2009 da Ciência e Tecnologia de Alimentos.
Quando alguém no Brasil faz uma salsa com dedo-de-moça, está usando uma espécie que não faz parte do repertório mexicano clássico. Não é substituição ruim: é outra planta.
O que não afirmamos: que a C. baccatum não exista no México. Não encontramos fonte que sustente uma afirmação tão absoluta, então não a fazemos. O que está documentado é a identidade da espécie das pimentas brasileiras, não a ausência dela no México.
Uma contradição que não vamos esconder
O nome "cumari" aponta para plantas diferentes conforme a fonte.
- No artigo de 2009 da Ciência e Tecnologia de Alimentos, a pimenta cumari analisada é classificada como C. baccatum var. praetermissum.
- No artigo de 2013 da Ciência e Tecnologia de Alimentos sobre voláteis, a cumari-do-Pará aparece como variedade de C. chinense — a linhagem CNPH 4080 da Embrapa é descrita como "uma linhagem de cumari-do-Pará" dentro de um estudo inteiramente sobre C. chinense.
As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, porque "cumari" é nome popular de mais de uma planta. O que não dá é para pegar um valor de ardência publicado para uma "cumari" e aplicá-lo à outra. Se a receita pede cumari, olhe a pimenta, não o nome.
Um estudo que não vamos converter em Scoville
O trabalho de 2009 mediu capsaicinoides em quatro pimentas e chegou a uma ordem clara: cumari > cambuci > malagueta > pimentão, com a cumari apresentando de longe a maior concentração.
Só que essas concentrações foram medidas no extrato e nas suas frações (bruto, hexânico, clorofórmico, acetato de etila), em mg por 100 g de extrato — não por 100 g de fruto. Sem a massa de partida e o volume de extração, converter isso para Scoville seria inventar um número.
Por isso citamos a ordem, que é o que o estudo sustenta, e não publicamos SHU.
Quanta pimenta o Brasil planta
O dado oficial mais detalhado que conseguimos puxar diretamente da API do SIDRA/IBGE, com "pimenta" como produto da horticultura separado, é o do Censo Agropecuário de 2006:
| Indicador | Brasil, 2006 |
|---|---|
| Quantidade produzida | 18.682 t |
| Valor da produção | R$ 29.774 mil |
| Estabelecimentos | 12.678 |
É um dado antigo e dizemos isso. Não é o número de hoje. É o número oficial que a API disponibiliza com esse recorte; se existe recorte equivalente no Censo de 2017, não conseguimos localizá-lo pela mesma via.
Por estado, ainda em 2006:
| Estado | Produção | Estabelecimentos |
|---|---|---|
| São Paulo | 4.627 t | 1.120 |
| Ceará | 3.354 t | 919 |
| Pará | 2.052 t | 1.021 |
| Amazonas | 1.482 t | 891 |
| Bahia | 1.097 t | 1.602 |
| Minas Gerais | 870 t | 1.221 |
Repare na linha da Bahia. É o estado com mais estabelecimentos produtores de todos — 1.602 — e mesmo assim produz menos que São Paulo, que tem 1.120. Pimenta na Bahia é lavoura de muita gente em pouca terra, não de poucos em muita.
E repare em Pará e Amazonas juntos: 3.534 t. A região onde a C. chinense tem a sua maior diversidade genética também é uma das que mais produzem.
O que isso muda na cozinha
Três coisas práticas.
1. Para receita mexicana com habanero, a pimenta-de-cheiro e a murupi são a mesma espécie. Não é um truque de substituição: é literalmente C. chinense. O perfil aromático da espécie — frutado, floral, persistente — é o que a receita mexicana está pedindo quando pede habanero. A ardência varia de acesso para acesso, então prove antes.
2. A biquinho não substitui chile nenhum, e não é defeito dela. Ela dá aroma de pimenta sem ardência. Num prato mexicano isso serve para a camada aromática, nunca para a ardência. Se a receita depende do calor, a biquinho não entrega, por mais que seja da mesma espécie do habanero.
3. Dedo-de-moça não é jalapeño. São espécies diferentes (C. baccatum contra C. annuum). A troca funciona em muita coisa, mas você está mudando de planta, não só de tamanho. Se o resultado sair diferente do esperado, é por isso.
O que isto não é
Não é a tese de que o chile é brasileiro. A C. annuum, que é a base de quase toda a cozinha mexicana de chile seco, foi domesticada no México, e o estudo da PNAS diz onde.
É outra coisa, mais estreita e mais útil: a espécie do habanero tem a sua maior diversidade genética na Amazônia, é a pimenta mais consumida do Brasil, e quem cozinha mexicano no Brasil tem essa espécie no hortifrúti da esquina.

Fundador, Recetas Mexas
Mexicano de Puebla, profissional de TI e amante da boa comida. Autor de mais de 1.250 receitas mexicanas autênticas adaptadas para cozinhas do mundo todo. Mora em Madri desde 2018.
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