
O Brasil importa 0,133 grama de pimenta mexicana por habitante por ano
Fomos aos microdados da aduana brasileira. Em 2025 entraram 28.360 kg de pimenta mexicana moída — e zero quilo de pimenta seca inteira. O que o Brasil compra mesmo do México é tequila.
Você já suspeitava que era difícil achar chile mexicano no Brasil. Agora dá para saber exatamente quanto entra no país, porque a aduana brasileira publica cada registro de importação.
Fomos ler.
O que o Brasil compra do México
Em 2025, o Brasil importou do México US$ 6.214.583.742 em 917.156.252 kg de mercadoria. Isso é 2,22% de tudo o que o país importou naquele ano.
Não é pouco dinheiro. Só que quase nada disso se come.
Os quatro maiores itens de 2025:
| Produto | Valor |
|---|---|
| Automóveis 1.500–3.000 cm³ | US$ 353.290.783 |
| Servidores e processadores | US$ 332.297.710 |
| Caixas de câmbio | US$ 238.258.744 |
| Autopeças | US$ 177.655.185 |
Somando todos os capítulos de alimentos e bebidas da nomenclatura aduaneira — os capítulos 1 a 24, de animais vivos a bebidas —, o Brasil importou do México US$ 49.973.392 em 2025. São 13.331.542 kg.
0,80% do total. Comida é um arredondamento na relação comercial entre os dois países.
A pimenta moída: 28 toneladas para 213 milhões de pessoas
A posição aduaneira 0904.22 cobre "pimentões e pimentas dos gêneros Capsicum ou Pimenta, triturados ou em pó". É onde entraria um chile ancho moído.
Brasil, 2025, por origem:
| Origem | Valor (US$) | Quilos |
|---|---|---|
| China | 6.243.990 | 3.026.130 |
| Peru | 1.676.976 | 1.176.500 |
| Índia | 1.013.060 | 506.159 |
| Espanha | 489.464 | 95.571 |
| México | 306.988 | 28.360 |
O México é o quinto fornecedor. Mas olhe a proporção: 3,12% do valor e apenas 0,57% dos quilos.
A explicação está no preço. A pimenta moída mexicana entra a US$ 10,82 por quilo. A chinesa entra a US$ 2,06. A mexicana custa cinco vezes mais que a chinesa e é a mais cara do grupo com folga.
E 28.360 kg, divididos pelos 213.421.037 habitantes que o IBGE estima para o Brasil, dão 0,133 grama por pessoa por ano.
Cento e trinta e três miligramas. Uma colher de chá rasa de pimenta em pó tem mais ou menos 2 gramas. A importação anual inteira dá menos de um décimo de colher de chá por brasileiro.
E a pimenta seca inteira: zero
A posição 0904.21 é a das pimentas secas não trituradas — a vagem inteira. É exatamente o chile ancho, o guajillo, o pasilla que a receita mexicana pede.
| Ano | Quilos vindos do México |
|---|---|
| 2022 | 14.500 |
| 2023 | 0 |
| 2024 | 12.000 |
| 2025 | 0 |
| 2026 (jan–ago) | 0 |
Em 2025 e nos primeiros oito meses de 2026, não entrou no Brasil um único quilo de pimenta seca inteira vinda do México. Zero registros, não uma soma que deu zero por arredondamento.
O que entra nessa posição vem da China, dos Emirados, da Nigéria e do Reino Unido.
Isto fecha o círculo com o que qualquer um vê na prateleira: não é que as lojas não queiram vender chile guajillo. É que ele não cruza a fronteira.
Como chega a pouca pimenta que chega
Dois detalhes do registro aduaneiro que dizem muito:
Entra toda por São Paulo. Cem por cento dos registros de 2025 têm São Paulo como unidade da federação.
E mais da metade vem de avião. Em 2026, até agosto, entraram 11.774 kg por via aérea — Galeão e Guarulhos — contra 8.703 kg pelo Porto de Santos.
Pimenta em pó transportada de avião. É a explicação dos US$ 10,82 por quilo, e é a razão pela qual o pote custa o que custa na loja.
O que o Brasil realmente compra do México para comer
Se a pimenta é marginal, o que não é?
| Produto (posição) | México, 2025 |
|---|---|
| Tequila e destilados de agave (2208.90) | US$ 5.682.282 |
| Produtos de padaria (1905.90) | US$ 3.739.036 |
| Farinha de milho (1102.20) | US$ 898.944 |
| Pimenta moída (0904.22) | US$ 306.988 |
| Hortaliças preparadas (2005.99) | US$ 8.998 |
O item mais valioso é destilado de agave. E não é um pico isolado: entre 2022 e 2025 essa posição rendeu ao México entre US$ 5,6 e 7,9 milhões todos os anos. Nessa posição o México é o segundo maior fornecedor do Brasil no mundo, atrás apenas do Reino Unido.
Na farinha de milho o México foi, em 2025, o segundo fornecedor mundial do Brasil, atrás da Colômbia. Nos produtos de padaria — a posição onde caem as tortillas industrializadas — foi o terceiro.
E duas posições que talvez surpreendam: cerveja mexicana, zero (o maior fornecedor de cerveja importada do Brasil é a Alemanha). Abacate mexicano, zero — todo o abacate importado pelo Brasil vem do Chile.
Um alerta contra a manchete fácil
Em 2026, até agosto, a farinha de milho, os produtos de padaria e as hortaliças preparadas vindas do México estão todas em zero.
É tentador escrever "o México parou de vender comida ao Brasil". Não vamos.
Verificamos que esses zeros são reais e não uma mudança de classificação: as mesmas posições seguem tendo tráfego mundial em 2026, com Colômbia, Chile, Malásia e França. O México simplesmente não aparece.
Mas a série histórica mostra que esses fluxos sempre foram episódicos, não uma base estável que despencou:
- Produtos de padaria: 1.208 t (2022) → 2.022 t (2023) → 164 t (2024) → 510 t (2025) → 0.
- Farinha de milho: 0 (2022) → 48 t → 3.100 t (2024) → 1.340 t (2025) → 0.
Sobe e desce em ordens de magnitude de um ano para o outro. Um zero dentro dessa série não é uma ruptura: é mais um degrau. A única linha estável de toda a pauta alimentar mexicana para o Brasil é o destilado de agave.
Como sabemos que estes números estão certos
Esta seção existe porque um número de importação é fácil de errar e ninguém percebe.
A API oficial do Comex Stat respondeu HTTP 429 — limite de requisições — nas cinco tentativas, com esperas de 12, 30 e 45 segundos. Em vez de desistir, fomos aos microdados oficiais completos: os arquivos de importação por NCM que o próprio ministério publica, ano a ano, com uma linha por combinação de produto, país, estado, via e mês.
Depois validamos contra o arquivo oficial de conferência que acompanha os microdados. As somas bateram exatas, ao dólar e ao número de linhas, nos quatro anos:
| Ano | Valor oficial (US$) | O que calculamos |
|---|---|---|
| 2022 | 272.610.686.946 | idêntico |
| 2023 | 240.792.839.224 | idêntico |
| 2024 | 262.869.606.174 | idêntico |
| 2025 | 280.208.433.825 | idêntico |
E houve um susto que vale contar: a primeira descarga do arquivo de 2024 truncou em 63 MB dos 166 MB reais. O arquivo abria normalmente, as somas saíam sem erro nenhum — e estariam erradas, sem nenhum aviso. Só a conferência contra o total oficial revelou o problema. O arquivo foi baixado de novo e revalidado.
Se você for refazer esta conta, confira o total antes de acreditar em qualquer recorte.
O que isso significa para quem cozinha
O chile seco inteiro não está no Brasil porque não entra no Brasil. Não é distribuição, nem margem, nem falta de demanda: é a aduana mostrando zero quilo em 2025 e em 2026.
O pó que entra é caro porque vem de avião. Se você encontrar pimenta mexicana moída à venda no Brasil e o preço parecer absurdo, o preço não é absurdo — é aéreo.
E se você quer um único produto mexicano de verdade no Brasil, ele é líquido. O destilado de agave é a única coisa que o México vende ao Brasil de forma constante, ano após ano, em volume que se mede.

Fundador, Recetas Mexas
Mexicano de Puebla, profissional de TI e amante da boa comida. Autor de mais de 1.250 receitas mexicanas autênticas adaptadas para cozinhas do mundo todo. Mora em Madri desde 2018.
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