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O Brasil importa 0,133 grama de pimenta mexicana por habitante por ano
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O Brasil importa 0,133 grama de pimenta mexicana por habitante por ano

24 de set. de 20266 min de leitura(Atualizado: 29 de set. de 2026)

Fomos aos microdados da aduana brasileira. Em 2025 entraram 28.360 kg de pimenta mexicana moída — e zero quilo de pimenta seca inteira. O que o Brasil compra mesmo do México é tequila.

Você já suspeitava que era difícil achar chile mexicano no Brasil. Agora dá para saber exatamente quanto entra no país, porque a aduana brasileira publica cada registro de importação.

Fomos ler.

O que o Brasil compra do México

Em 2025, o Brasil importou do México US$ 6.214.583.742 em 917.156.252 kg de mercadoria. Isso é 2,22% de tudo o que o país importou naquele ano.

Não é pouco dinheiro. Só que quase nada disso se come.

Os quatro maiores itens de 2025:

ProdutoValor
Automóveis 1.500–3.000 cm³US$ 353.290.783
Servidores e processadoresUS$ 332.297.710
Caixas de câmbioUS$ 238.258.744
AutopeçasUS$ 177.655.185

Somando todos os capítulos de alimentos e bebidas da nomenclatura aduaneira — os capítulos 1 a 24, de animais vivos a bebidas —, o Brasil importou do México US$ 49.973.392 em 2025. São 13.331.542 kg.

0,80% do total. Comida é um arredondamento na relação comercial entre os dois países.

A pimenta moída: 28 toneladas para 213 milhões de pessoas

A posição aduaneira 0904.22 cobre "pimentões e pimentas dos gêneros Capsicum ou Pimenta, triturados ou em pó". É onde entraria um chile ancho moído.

Brasil, 2025, por origem:

OrigemValor (US$)Quilos
China6.243.9903.026.130
Peru1.676.9761.176.500
Índia1.013.060506.159
Espanha489.46495.571
México306.98828.360

O México é o quinto fornecedor. Mas olhe a proporção: 3,12% do valor e apenas 0,57% dos quilos.

A explicação está no preço. A pimenta moída mexicana entra a US$ 10,82 por quilo. A chinesa entra a US$ 2,06. A mexicana custa cinco vezes mais que a chinesa e é a mais cara do grupo com folga.

E 28.360 kg, divididos pelos 213.421.037 habitantes que o IBGE estima para o Brasil, dão 0,133 grama por pessoa por ano.

Cento e trinta e três miligramas. Uma colher de chá rasa de pimenta em pó tem mais ou menos 2 gramas. A importação anual inteira dá menos de um décimo de colher de chá por brasileiro.

E a pimenta seca inteira: zero

A posição 0904.21 é a das pimentas secas não trituradas — a vagem inteira. É exatamente o chile ancho, o guajillo, o pasilla que a receita mexicana pede.

AnoQuilos vindos do México
202214.500
20230
202412.000
20250
2026 (jan–ago)0

Em 2025 e nos primeiros oito meses de 2026, não entrou no Brasil um único quilo de pimenta seca inteira vinda do México. Zero registros, não uma soma que deu zero por arredondamento.

O que entra nessa posição vem da China, dos Emirados, da Nigéria e do Reino Unido.

Isto fecha o círculo com o que qualquer um vê na prateleira: não é que as lojas não queiram vender chile guajillo. É que ele não cruza a fronteira.

Como chega a pouca pimenta que chega

Dois detalhes do registro aduaneiro que dizem muito:

Entra toda por São Paulo. Cem por cento dos registros de 2025 têm São Paulo como unidade da federação.

E mais da metade vem de avião. Em 2026, até agosto, entraram 11.774 kg por via aérea — Galeão e Guarulhos — contra 8.703 kg pelo Porto de Santos.

Pimenta em pó transportada de avião. É a explicação dos US$ 10,82 por quilo, e é a razão pela qual o pote custa o que custa na loja.

O que o Brasil realmente compra do México para comer

Se a pimenta é marginal, o que não é?

Produto (posição)México, 2025
Tequila e destilados de agave (2208.90)US$ 5.682.282
Produtos de padaria (1905.90)US$ 3.739.036
Farinha de milho (1102.20)US$ 898.944
Pimenta moída (0904.22)US$ 306.988
Hortaliças preparadas (2005.99)US$ 8.998

O item mais valioso é destilado de agave. E não é um pico isolado: entre 2022 e 2025 essa posição rendeu ao México entre US$ 5,6 e 7,9 milhões todos os anos. Nessa posição o México é o segundo maior fornecedor do Brasil no mundo, atrás apenas do Reino Unido.

Na farinha de milho o México foi, em 2025, o segundo fornecedor mundial do Brasil, atrás da Colômbia. Nos produtos de padaria — a posição onde caem as tortillas industrializadas — foi o terceiro.

E duas posições que talvez surpreendam: cerveja mexicana, zero (o maior fornecedor de cerveja importada do Brasil é a Alemanha). Abacate mexicano, zero — todo o abacate importado pelo Brasil vem do Chile.

Um alerta contra a manchete fácil

Em 2026, até agosto, a farinha de milho, os produtos de padaria e as hortaliças preparadas vindas do México estão todas em zero.

É tentador escrever "o México parou de vender comida ao Brasil". Não vamos.

Verificamos que esses zeros são reais e não uma mudança de classificação: as mesmas posições seguem tendo tráfego mundial em 2026, com Colômbia, Chile, Malásia e França. O México simplesmente não aparece.

Mas a série histórica mostra que esses fluxos sempre foram episódicos, não uma base estável que despencou:

  • Produtos de padaria: 1.208 t (2022) → 2.022 t (2023) → 164 t (2024) → 510 t (2025) → 0.
  • Farinha de milho: 0 (2022) → 48 t → 3.100 t (2024) → 1.340 t (2025) → 0.

Sobe e desce em ordens de magnitude de um ano para o outro. Um zero dentro dessa série não é uma ruptura: é mais um degrau. A única linha estável de toda a pauta alimentar mexicana para o Brasil é o destilado de agave.

Como sabemos que estes números estão certos

Esta seção existe porque um número de importação é fácil de errar e ninguém percebe.

A API oficial do Comex Stat respondeu HTTP 429 — limite de requisições — nas cinco tentativas, com esperas de 12, 30 e 45 segundos. Em vez de desistir, fomos aos microdados oficiais completos: os arquivos de importação por NCM que o próprio ministério publica, ano a ano, com uma linha por combinação de produto, país, estado, via e mês.

Depois validamos contra o arquivo oficial de conferência que acompanha os microdados. As somas bateram exatas, ao dólar e ao número de linhas, nos quatro anos:

AnoValor oficial (US$)O que calculamos
2022272.610.686.946idêntico
2023240.792.839.224idêntico
2024262.869.606.174idêntico
2025280.208.433.825idêntico

E houve um susto que vale contar: a primeira descarga do arquivo de 2024 truncou em 63 MB dos 166 MB reais. O arquivo abria normalmente, as somas saíam sem erro nenhum — e estariam erradas, sem nenhum aviso. Só a conferência contra o total oficial revelou o problema. O arquivo foi baixado de novo e revalidado.

Se você for refazer esta conta, confira o total antes de acreditar em qualquer recorte.

O que isso significa para quem cozinha

O chile seco inteiro não está no Brasil porque não entra no Brasil. Não é distribuição, nem margem, nem falta de demanda: é a aduana mostrando zero quilo em 2025 e em 2026.

O pó que entra é caro porque vem de avião. Se você encontrar pimenta mexicana moída à venda no Brasil e o preço parecer absurdo, o preço não é absurdo — é aéreo.

E se você quer um único produto mexicano de verdade no Brasil, ele é líquido. O destilado de agave é a única coisa que o México vende ao Brasil de forma constante, ano após ano, em volume que se mede.

Edmond Bojalil
Edmond Bojalil

Fundador, Recetas Mexas

Mexicano de Puebla, profissional de TI e amante da boa comida. Autor de mais de 1.250 receitas mexicanas autênticas adaptadas para cozinhas do mundo todo. Mora em Madri desde 2018.

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