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Día de Muertos e Pão-por-Deus: duas tradições
Cultura

Día de Muertos e Pão-por-Deus: duas tradições

31/10/20266 min de leitura(Atualizado: 31/10/2026)

O México e Portugal lembram os mortos nos mesmos dias de novembro. O que têm em comum o Día de Muertos e o Pão-por-Deus, e o que se come em cada um.

No início de novembro, Portugal e o México olham para o mesmo calendário. A 1 de novembro, Dia de Todos-os-Santos, as crianças portuguesas saem à rua a pedir o Pão-por-Deus e muitas famílias vão ao cemitério levar flores. Nos mesmos dias, no México, as casas enchem-se de altares com velas, fotografias, flores cor de laranja e a comida preferida de quem já partiu: é o Día de Muertos. As duas tradições têm raízes no mesmo calendário cristão, mas cresceram de formas muito diferentes, e ambas passam pela mesa.

O Día de Muertos no México

Segundo a UNESCO, que inscreveu a festividade indígena dedicada aos mortos na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2008 (depois de a ter proclamado em 2003), as celebrações decorrem todos os anos entre o fim de outubro e o início de novembro. A ideia central é que as almas dos mortos regressam por pouco tempo para visitar os vivos, e que é preciso recebê-las.

A UNESCO descreve como as famílias guiam esse regresso: espalham pétalas, velas e oferendas pelo caminho entre o cemitério e a casa, preparam os pratos preferidos do defunto para o altar doméstico e para a campa, e decoram tudo com flores e artesanato, como o papel recortado. Não é uma festa triste no sentido português: há música, comida partilhada e visitas longas ao cemitério, muitas vezes noite dentro.

O altar de mortos, ou ofrenda, tem elementos que se repetem: fotografias, velas, água, sal, flores de cempasúchil (uma espécie de cravo-de-defunto, de cor laranja intensa), caveiras de açúcar, incenso de copal e comida. A disposição e os pormenores variam de região para região e de família para família.

O que se come no Día de Muertos

A comida é o coração da ofrenda. Põe-se no altar o que a pessoa gostava de comer, e depois a família partilha o resto. Alguns pratos aparecem em quase todo o país:

  • Pan de muerto: um pão doce e macio, aromatizado com flor de laranjeira, decorado com tiras de massa em forma de ossos e polvilhado de açúcar. A receita está em pan de muerto, e a história no guia do pan de muerto.
  • Tamales: os tamales de muertos mudam de região para região; podem ser de mole, de rajas ou doces.
  • Mole: o mole para muertos é um prato de festa e de partilha, que dá trabalho e por isso se reserva para datas especiais.
  • Doces: doce de abóbora com piloncillo, caveiras de açúcar, tejocotes em calda.
  • Bebidas: atole, chocolate quente, café de olla, e, para os adultos, a bebida preferida do defunto. Ver o atole de muertos.

Na Península do Iucatão, a celebração chama-se Hanal Pixán e tem o seu próprio prato central, o mucbipollo, um grande tamal cozido debaixo da terra.

Pão-por-Deus e Todos-os-Santos em Portugal

Em Portugal, o Dia de Todos-os-Santos, a 1 de novembro, é feriado nacional. Foi um dos feriados suspensos entre 2013 e 2015 e reposto pela Lei n.º 8/2016, publicada no Diário da República a 1 de abril de 2016. No dia seguinte, 2 de novembro, é o Dia de Fiéis Defuntos, em que muitas famílias visitam as campas.

O Pão-por-Deus é a tradição mais viva do dia. De manhã, as crianças andam de porta em porta, de saco de pano na mão, e pedem «pão por Deus»; recebem pão, broas, bolos, frutos secos, rebuçados ou algumas moedas. Noutras zonas, o pedido muda de nome e de forma: há quem peça «bolinhos e bolinhós» e há terras onde o costume se faz na véspera.

Ninguém sabe ao certo quando começou. Um texto de divulgação da Universidade dos Açores lembra que a tradição já deveria existir antes, mas que há quem defenda que ganhou força depois do terramoto de 1 de novembro de 1755, quando muitos lisboetas, sem casa, tiveram de pedir comida. O mesmo texto liga o costume à memória dos mortos: as esmolas de comida eram também uma forma de lembrar as almas.

Na mesa portuguesa destes dias aparecem as broas dos santos (com mel, especiarias, frutos secos e, em muitas receitas, batata-doce) e as castanhas, que já anunciam o São Martinho. Em comum com o México: o pão doce, a partilha e a ligação entre a comida e quem já partiu.

Semelhanças e diferenças

As duas tradições partem das mesmas datas do calendário católico, Todos-os-Santos e Fiéis Defuntos, mas no México misturaram-se com rituais indígenas mais antigos dedicados aos mortos, que lhes deram outra cor. Algumas diferenças saltam à vista:

  • Quem recebe a comida: no Pão-por-Deus são as crianças vivas que pedem e recebem; no Día de Muertos, a comida é posta para os mortos e só depois partilhada pelos vivos.
  • Onde acontece: em Portugal, nas ruas e à porta de casa; no México, no altar doméstico e no cemitério.
  • O tom: o Día de Muertos é uma festa com música, cor e humor sobre a morte; os dias dos mortos em Portugal são mais recolhidos.
  • O pão: em ambos os países há um pão doce próprio destes dias, o pan de muerto e as broas dos santos.

Como fazer um altar e um jantar de Día de Muertos em Portugal

Para quem quer celebrar em casa, um altar simples basta: uma mesa ou uma prateleira com toalha, uma fotografia, velas, um copo de água, flores cor de laranja (os cravos-de-defunto e os crisântemos amarelos e laranja que se vendem nas floristas nesta altura do ano funcionam bem) e a comida preferida de quem se quer lembrar.

Para a mesa, um menu possível: tamales de mole ou mole poblano com arroz, pan de muerto para a sobremesa e champurrado ou chocolate quente para acompanhar. O pan de muerto faz-se com farinha, ovos, manteiga e água de flor de laranjeira, que se encontram em qualquer supermercado português; para o mole e os tamales são precisos chiles secos e farinha de milho nixtamalizado, que se compram online. Ver onde comprar ingredientes mexicanos em Portugal e, para o picante, chiles e malaguetas em Portugal.

E porque não juntar as duas tradições? Pôr broas dos santos no altar, ao lado do pan de muerto, é uma forma bonita de lembrar que, dos dois lados do Atlântico, novembro começa à mesa com quem já não está.

Perguntas frequentes

Quando se celebra o Día de Muertos?

Segundo a UNESCO, entre o fim de outubro e o início de novembro. Os dias centrais coincidem com Todos-os-Santos e Fiéis Defuntos, a 1 e 2 de novembro.

O Día de Muertos é o mesmo que o Halloween?

Não. O Halloween vem da tradição anglo-saxónica da véspera de Todos-os-Santos; o Día de Muertos é uma celebração mexicana de raiz indígena e católica, centrada na memória e na visita dos mortos.

O que se pede no Pão-por-Deus?

As crianças pedem «pão por Deus» de porta em porta e recebem pão, broas, bolos, frutos secos, rebuçados ou moedas. Os nomes e os pormenores variam de região para região.

Onde se compra pan de muerto em Portugal?

É raro encontrá-lo à venda. Faz-se em casa com ingredientes comuns; a receita está em pan de muerto, no site.

Edmond Bojalil
Edmond Bojalil

Fundador, Recetas Mexas

Mexicano de Puebla, profissional de TI e amante da boa comida. Autor de mais de 1.250 receitas mexicanas autênticas adaptadas para cozinhas do mundo todo. Mora em Madri desde 2018.

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